*O Silva das vacas
- um mimo de texto !!!
*
Felizmente que ainda resta o HUMOR
*Esta "pérola" jornalistica merece ser lida até ao fim.*
**
*O Silva das vacas
*
Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas.
Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais
mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e
vacas. De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se
fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de
desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava
insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de
escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito
amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne,
blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa,
explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou
menos isto:
"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas
atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos
por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada p! or um. O
rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas
e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro
tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não
comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu
concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não
percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por
dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi
descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no
dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do
boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que
era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai
também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas,
escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."
Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a
brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a
sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.
Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria
"gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria
indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta
pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam
satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este
homem, que se deixou rodear, no governo, pel! o que vi ria a ser a maior corja
de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e
ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este
político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de
nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi
humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente,
foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria
e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em
que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este
homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo
"sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar
verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de
inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da
felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!
Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma
visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco
se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras,
se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou
sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder
sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a
espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou
não uma explicação freudiana. É possível. Porque este ho! mem deve julgar-se o
capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há
meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento
personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente
"ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e
delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.
A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr.
Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que
não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das
vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.
*Luís Manuel Cunha* *in* *«Jornal de Barcelos»*, 5 de Outubro, 2011
- um mimo de texto !!!
*
Felizmente que ainda resta o HUMOR
*Esta "pérola" jornalistica merece ser lida até ao fim.*
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*O Silva das vacas
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Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas.
Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais
mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e
vacas. De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se
fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de
desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava
insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de
escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito
amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne,
blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa,
explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou
menos isto:
"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas
atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos
por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada p! or um. O
rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas
e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro
tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não
comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu
concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não
percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por
dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi
descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no
dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do
boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que
era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai
também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas,
escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."
Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a
brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a
sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.
Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria
"gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria
indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta
pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam
satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este
homem, que se deixou rodear, no governo, pel! o que vi ria a ser a maior corja
de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e
ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este
político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de
nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi
humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente,
foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria
e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em
que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este
homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo
"sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar
verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de
inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da
felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!
Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma
visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco
se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras,
se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou
sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder
sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a
espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou
não uma explicação freudiana. É possível. Porque este ho! mem deve julgar-se o
capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há
meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento
personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente
"ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e
delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.
A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr.
Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que
não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das
vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.
*Luís Manuel Cunha* *in* *«Jornal de Barcelos»*, 5 de Outubro, 2011
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